Bosch: “Temos o método alemão, com a criatividade portuguesa”

 

Bosch de Ovar vai ter a equipa reforçada, com mais 300 colaboradores até 2021. Vem aí uma nova área de I&D, com a unidade a posicionar-se na Internet das Coisas. “Vamos fazer em 2019 o primeiro produto completo em Ovar”, revela António Pereira.

 

A Bosch revelou a intenção de criar uma equipa de Inovação e Desenvolvimento (I&D) na Unidade de Ovar, em meados de dezembro. Esta semana, o Jornal Económico, em visita exclusiva aquela unidade, entrevistou o administrador António Pereira, cuja gestão completa dois anos em janeiro, abordando a importância do trabalho desenvolvido na Bosch e qual o seu papel na região.

 

Quanto investiu a Bosch na criação da nova equipa de I&D de Ovar?
Cerca de um milhão de euros de investimento.

 

Durante a visita ouvi a expressão “de Ovar para o mundo”. Confirma-se?
Confirma-se. Nós produzimos a nível mundial, desde a Europa para os EUA, China… Temos, agora, um projeto para a Índia, para o sistema de eleições da Índia, onde querem filmar as mesas de voto. Nós fornecemos tipicamente o projeto. Aqui estamos a fazer a parte física e não a parte de serviço de software. Nesta fábrica, a Bosch tem quatro mil instaladores a nível nacional.

 

Ainda é necessário recorrer a know-how estrangeiro?
Nós não fazemos o desenvolvimento total dos produtos, fazemos de alguns produtos. Mas queremos cada vez mais ter capacidade, capabilidade em desenvolver. É estratégia nossa garantir que temos capacidade de desenvolver e produzir aqui.

 

A partir de quando será possível desenvolver e produzir um produto a partir de Ovar?
Vamos fazer em 2019 o primeiro produto completo em Ovar, ao nível de vídeo. Normalmente, nós fazemos partes. A Bosch tem 14 centros de desenvolvimento a nível mundial, em 2018, e nós somos um deles – cada um fica responsável por um workpackage (projeto). A nossa ambição é fazer crescer o volume de negócio de Ovar, trazendo mercado que não é nativo produzido na Bosch e, para isso, precisamos de ser nós a conceber ou a desenhar, inovar ou produzir.

 

Qual é o papel da unidade de Ovar na Bosch?
A nossa competência está ao nível da competitividade, da criatividade, da flexibilidade das pessoas e agilidade de processos. Queremos e vemos-nos como uma referência ao nível da cadeia de valor. Isto é, não só produzir, mas produzir e desenvolver, e industrializar, que é uma parte da nossa competência. Ou seja: desenvolvimento, industrialização e produção. Vemo-nos como o parceiro preferencial das unidades de negócio por parte do marketing, que define um projeto e um produto necessário para o mercado. [No marketing] decide-se onde é produzido e desenvolvido o produto e é aí que nós nos queremos colocar e queremos estar: na primeira opção do marketing da Bosch.

 

Qual é relevância desta unidade de Ovar na região?
Este tipo de unidade, nesta localização, que conta com 50 mil habitantes, coloca-nos como uma âncora para a atração de conhecimento, porque havendo necessidade, há uma tendência natural da própria sociedade se adaptar às necessidades do meio envolvente. Para a sociedade local, isto representa uma oportunidade de criar conhecimento, competências e oportunidades para o país. A nível de mão-de-obra, ainda que qualificada mas não ao nível do ensino superior, permite a estabilidade no índice de empregabilidade. Esse é um dos nossos propósitos para definir o nosso futuro. Nós trabalhamos para sermos proativos o suficiente para gerar o nosso futuro. Estamos a gerar potencial para a sociedade, em empregabilidade e conhecimento.

 

Quão importantes são as parcerias que a Bosch mantém com as universidades?
Essa ligação cria um vinculo implícito com os alunos. Podemos trazer os melhores alunos porque eles gostam dos projetos; traz desenvolvimento, porque estes alunos acabam por desenvolver novas competências que antes não tínhamos. E nós socorremos-nos das universidades não só porque é interessantes, mas também porque precisamos dos conhecimentos que eles geram.

 

É possível aplicar o método de trabalho germânico observado na Bosch em Portugal?
Perfeitamente. É uma combinação excelente, o método alemão com a criatividade portuguesa. Com o coração, a boa vontade e a generosidade dos portugueses e, se a isso juntarmos o rigor, o pragmatismo e algum planeamento alemão… Os portugueses têm características muito apetecíveis para o mundo do trabalho.

 

Que desafios enfrenta, e se já os superou, desde que assumiu a gestão da unidade de Ovar?
Os três maiores desafios são as pessoas: garantir a cultura e o bem estar das pessoas, fazer com que as pessoas tenham um propósito. Depois, a diversificação do portefólio e o crescimento da empresa – estamos num caminho ascendente. Outra fase que ainda não está madura o suficiente, por questões de prioridades, é a fase do 4.0 e de digitalização. Precisamos ainda de trabalhar ainda essa área que requer investimento e requer tempo.

 

Qual é o futuro deste mercado onde a Bosch opera, em Portugal e no mundo?
A nível mundial, a estratégia da Bosch tem um largo espaço de conquista e está bem posicionado. [Em Ovar] também estamos bem posicionados, porque é uma divisão da Bosch que está muito alinhada com a estratégia dos três S’s. A Bosch é o key player da Internet das Coisas, estabeleceu a estratégia dos três S’s: sensores, softaware e serviços. Em Ovar, não só produzimos como começamos a fazer serviços. Desde technical writing a R&D [investigação e desenvolvimento]. Estamos a tentar uma ‘alavancagem’ da nossa estratégia, de forma a nos posicionarmos não só como produtores de bens, mas como produtores de conhecimento.

 

Fonte: Jornal Económico