Entrevistas Exclusivas

Entrevista a Vitor Peixoto, Diretor de Qualidade da APTIV Braga

Entrevista de teste

Numa entrevista exclusiva a Vitor Peixoto, Diretor de Qualidade da APTIV Braga, o Industrial Forum Portugal abordou, ao pormenor, junto do entrevistado, a importância da qualidade na Indústria Automóvel, qual o seu impacto e futuro.

 

1) Qual a importância da Qualidade na Industria Automóvel?

R:A Industria Automóvel tem evoluído consistentemente nos últimos anos, sobretudo na ultima década. A evolução natural dos veículos, capazes de assegurar transporte de passageiros e mercadorias de forma segura e tendencialmente autónoma, obriga a indices de fiabilidade nunca antes pensados. Zero defeitos não é mais uma meta da industria automóvel, mas um imperativo e uma necessidade vital para assegurar a continuidade das organizações neste mercado. Falhas em garantia acarretam danos de “imagem” e financeiros muito elevados, sobretudo quando ligados a segurança dos passageiros.

Neste sentido, os Sistemas de Gestão da Qualidade, integrando os requisitos específicos dos clientes nos processos produtivos (e de suporte) e assegurando o cumprimento integral das especificações dos produtos, constituem assim o garante da fiabilidade e performance dos produtos durante o ciclo de vida do automóvel, reflectindo nos meses em serviço, os resultados conseguidos nas validações dos protótipos.

Outro aspecto não menos importante, é a constante Análise de Risco que está inerente às normas de certificação e referenciais da Qualidade (ex: IATF 16949), onde todos os factores internos e externos à empresa, bem como indicadores e métricas dos processos,  são periodicamente analisados e revistos de forma a definir planos de acção para fechar eventuais desvios que impeçam a empresa e os seus produtos de atingir a performance definida.

Os Custos da Não Qualidade (CoPQ), constituÍdos principalmente pelos custos provenientes de falhas em Garantia, adicionado ao Refugo interno e acção especiais de Contenção (fora e dentro das fábricas), têm cada vez mais peso na rentabilidade operational das empresas do ramo automóvel, sendo a sua minimizarão um dos objectivos mais premente dos Sistemas de Gestão da Qualidade.

 

2) Que impacto tem a qualidade dos vossos produtos na segurança das pessoas?

R:”A Qualidade dos nossos produtos salva vidas”. O oposto é também um facto: a Não Qualidade nos nossos produtos tem impacto relevante na segurança e integridade física dos ocupantes de um automóvel.

Em Portugal, no ano passado (2019) houve 135063 acidentes rodoviários, com 2288 feridos graves e lamentavelmente, 472 mortos. Na realidade o numero de vitimas mortais será consideravelmente maior, pois as estatísticas apenas consideram os óbitos cujas vitimas falecem no local do acidente ou durante o transporte até às unidades de saúde. Cada vez mais os automóveis são apetrechados com sistemas de segurança activa, que funcionam como “alertas” permanentes de situações de perigo iminente, permitindo ao condutor correcções atempadas ou intervindo mesmo nos circuitos de comando do automóvel, evitando o acidente. Câmaras frontais, radares e lasers, sensores de aproximação, são elementos subjacentes à segurança activa, que auxiliam o condutor na prevenção e resposta rápida a situações de insegurança ou risco. Neste sentido, estes produtos não podem falhar, pois a sua falha ou baixa performance, desabilita o automóvel destas funções, que são vitais para uma condução segura. Se a Qualidade está na base de uma manufactura e teste eficaz destes produtos, o impacto para a segurança dos condutores e passageiros é assim evidente. Espera-se uma forte redução da sinistralidade rodoviária à medida que mais sistemas de segurança activa sejam integrados nos carros. Neste contexto, a falha (defeitos) não será permitida!

 

3) Terá a qualidade um papel fundamental à medida que as soluções de condução autónoma evoluem?

R: A Qualidade nos processos da industria automóvel, designada actualmente Quality End-to-End, ou seja, de uma extremidade à outra na cadeia de valor, desde a Concepção até ao desempenho em Garantia, é um vector imprescindível para a consolidação da confiança que é necessário os condutores terem para se “deixarem” conduzir de forma autónoma nos veículos. É necessário confiar sem reservas nos sistemas de apoio ou controlo da condução para os usar, caso contrário não serão utilizados pelos consumidores finais. Ninguém aceita deixar o carro assumir os comandos da sua própria condução de forma independente do condutor, sabendo que há uma probabilidade de os sistemas falharem e a viatura entrar em situação desgovernável, com risco de embate e saída da via de circulação. É esta noção de risco, alicerçada por um histórico de alguma falta de fiabilidade que alguns sistemas electrónicos evidenciaram no passado, que a nossa geração ainda tem algumas reservas relativamente à condução autónoma.  Só sistemas fiáveis, produzidos num contexto de Zero Defeitos (sem retrabalhos ou reparações), apoiados em procedimentos e processo produtivos robustos, integrados em Sistemas de Qualidade totais, poderão garantir esta fiabilidade necessária, para se lançar de forma generalizada a tão falada condução autónoma.

 

4) Qual é o caminho para a Aptiv Braga continuar (o caminho) a evolução para um mundo de mobilidade mais segura, mais ecológica e mais conectado?

R: A evolução para a mobilidade sustentável está a avançar a ritmos nunca antes vistos. Está em curso uma mudança fundamental de valores, onde a segurança, o impacte ambiental e “ligação” ao mundo exterior são cada vez mais valorizados. Pode aplicar-se claramente o modelo de Kano, onde cada vez mais as características atractivas, inovadoras, aquelas que realmente exponenciam a satisfação dos colaboradores, reflectem esta necessidade de segurança, ecologia e interação, em detrimento das características básicas (aquilo que os automóveis devem ter mínimo). Já ninguém aceita comprar um carro sem sistema de navegação e sistema de ligação Bluetooth.

Neste sentido, para a Aptiv Braga continuar a senda de se afirmar como Global Player da mobilidade sustentada, tem de continuar a apostar no desenvolvimento de produtos que maximizem a performance de segurança nos veículos, sejam de matriz ecologica (com consumo mínimo de recursos e geração de resíduos durante o tempo de vida e respectiva produção), sem esquecer a permanente conectividade com outros viaturas e centros globais de dados (“nuvem”).

 

5) Qual é o futuro da Qualidade na Industria Automóvel?

R:A Qualidade na Industria Automóvel irá evoluir no sentido de uma integração global em todas as etapas de vida dos produtos. Sendo a Qualidade o atingimento das Expectativas dos Clientes, através do fornecimento de bens e serviços dentro das especificações definidas, será cada vez mais um pilar na nossa industria, assegurando a concepção e produção de produtos de forma capaz, garantindo a tal fiabilidade e performance durante o tempo de vida definido para os produtos. Desde a cadeia de fornecedores, passando pelos testes de validação de produto e processo, até à produção série, será sempre necessário e premente garantir especificações e respeito pelas normas e referenciais exigidos pelos clientes. Uma prova desta evolução natural, é o facto de as normas recentes de Qualidade integrarem e  cobrirem o Software embebido nos produtos de forma a garantir a sua correcta execução e teste, dada a dependência que os sistemas de mobilidade têm face a algoritmos e códigos neles integrados.

A ligação da Qualidade a outras metodologias de melhoria de eficiência e redução de desperdícios, tal como os Sistemas Lean e diversas ferramentas Kaizen, será consolidada e mais integrada, sendo a Qualidade Intrínseca (Jidoka – Build in Quality) um dos 3 pilares de qualquer sistema Lean.

 

6) E qual é o futuro da Mobilidade?

R: Actualmente estamos na transição de sistemas de condução autónoma de Nível 2, de automatização parcial, onde módulos como os que a Aptiv já produz, fazem a gestão electronica de sensores e corrigem ou reduzem a velocidade do veículo, para o Nível 3, caracterizada por uma condução “semi-autónoma”, onde o veículo já reconhece sinais de transito e controla a presença de outros utentes, ajustando a condução.

Nos próximos 10 anos, prevê-se uma evolução natural para uma condução autónoma de nível 5, onde o condutor é claramente um “passageiro” entregando a responsabilidade de uma mobilidade eficaz e segura nos sistemas de segurança do seu veículo. A conectividade será permanente e a velocidade de trafego de dados entre viaturas será incomensuravelmente maior que a actual. A propulsão da mobilidade deverá também ter alterações significativas, com a electrificação em massa e outras alternativas ditas renováveis.

 

7) Terão estes dois caminhos algo a partilhar?

R: A Qualidade, estará, a meu ver, sempre intimamente ligada à evolução da Mobilidade, pois à medida que a mesma mobilidade se vai tornando independente e autónoma, a probabilidade de defeitos / erros / falhas tem de ser remota, com valores de casos por bilião de eventos (PPB em vez de PPM’s). Só com uma Qualidade Intrínseca que garanta a respectiva confiança na performance e capabilidade dos sistemas inerentes ao transporte de pessoas e bens, é que a mobilidade poderá ter uma evolução segura e capaz, de forma sustentável para o planeta. Portanto, a Mobilidade não se desenvolverá sem Qualidade, que ao mesmo tempo, pressiona os Sistemas de Gestão da Qualidade a evoluírem para se tornarem mais integrados de forma a produzir resultados mais capazes.

 

 

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